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A
divulgação das propostas da Comissão Europeia para as
negociações do alargamento comunitário durante a Presidência
espanhola da União Europeia, relançou o debate sobre a amplitude
da revisão intercalar da PAC, pese embora a Comissão tenha
defendido nessa altura que os dossiers teriam de ser analisados de
forma separada e que o alargamento não deveria contribuir para uma
reforma profunda da Política Agrícola Comum. Como referimos numa
reflexão anterior - Reforma intercalar da PAC: Para onde
vamos?,
para além do alargamento e da nova Lei Agrícola dos
EUA, é
necessário termos em linha de conta os aspectos relativos às
negociações da Organização Mundial do
Comércio, pelo que o
reforço da posição comunitária passará pela consolidação de
alianças com outros países, à luz das negociações em 2003.
Será
que todos estes condicionalismos irão determinar uma reforma
profunda da PAC ou apenas um processo de ajustamento e de
reorientação, consolidando as reformas precedentes e preparando o
caminho para uma reforma mais profunda no médio e longo-prazo, num
horizonte pós-2006?
A
resposta a esta nossa questão foi dada, aparentemente, na
divulgação oficial das propostas da Comissão sobre a revisão
intercalar da PAC (Mid Term Review) que teve lugar no passado mês
de Julho. Contrariamente às expectativas iniciais, pese embora não
tenhamos ficado surpreendidos se tivermos em linha de conta os “non-papers”
e as posições da Comissão nos meses anteriores à adopção da
proposta, a Comissão Europeia parece mais apostada numa verdadeira
reforma da PAC e não numa mera revisão intercalar - de resto
prevista na Cimeira de Berlim, no âmbito da Agenda 2000 - de uma
política que consome cerca de metade do orçamento comunitário.
Como integrar os novos países candidatos sem que um dos grandes
pilares da construção europeia seja modificado de forma
significativa é a questão central. Podemos discutir se o
alargamento, previsto para 2004 para um conjunto de 10 países
(Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia,
Lituânia, Malta, Polónia e República Checa) e, em 2007, alargado
à Roménia e Bulgária (a Turquia não tem data prevista) está ou
não a ser feito de uma forma precipitada e parece ser unânime que
nem a União Europeia se encontra preparada para os receber, nem os
países candidatos estão em condições de integrar este exigente e
cada vez mais indefinido e indeciso bloco político e económico.
Apesar de ainda não ter sido encerrado o dossier mais complicado e
que respeita ao sector agrícola, uma vez tomada a decisão
política - a assinatura do acordo com os novos países candidatos
está prevista para a Primavera de 2003, durante a presidência
grega - não é mais possível esconder que esta MTR é feita para
integrar os novos países. Por outro lado, é ingénuo e pouco
realista, pensar-se que o alargamento não irá ser feito à custa
da agricultura, dado o seu peso no orçamento da União Europeia e a
importância da agricultura nos países candidatos.
Com
o alargamento, a União Europeia passará a ter uma população de
455 milhões de pessoas, dispondo os 10 novos países aderentes de
um rendimento médio equivalente a 30% dos actuais Quinze. Por outro
lado, de um total de 114 mil milhões de euros de despesas totais da
União para 2006, estão previstos 18 mil milhões de euros com o
alargamento, ou seja, 16% das despesas da União Europeia contra 3%
em 2001 e 9% em 2002. Em termos agrícolas, pese embora o facto dos
países candidatos importarem já hoje quantidades de produtos
agrícolas que suplantam as suas exportações destes produtos para
a União, a superfície agrícola representa cerca de 44% da
superfície comunitária e a sua produção agrícola, 30% da
produção dos Quinze; os agricultores destes países representam,
em média, 17% da população, contra apenas 4.6% dos actuais
Estados-membros. Pensamos que estes dados, numa altura em que se
repensam o funcionamento das estruturas e o processo de decisão
comunitários, são suficientes para dar uma ideia da complexidade e
dos desafios do alargamento da União e do seu impacto para o futuro
da PAC e, consequentemente, para o nosso país.
Tendo
presente que as propostas da MTR foram claramente condicionadas pelo
processo do alargamento, importa pois minorar os seus efeitos em
Portugal e rentabilizar as medidas potencialmente favoráveis
contidas nas propostas da Comissão, as quais visam os seguintes
objectivos: a melhoria das perspectivas para o sector agrícola no
seu conjunto, o reforço da integração dos futuros
Estados-membros, a coerência, a longo prazo, entre os objectivos de
política interna e as negociações da Organização Mundial do
Comércio e uma política de qualidade, assente nos princípios de
segurança alimentar, ambiente e bem-estar animal, em detrimento de
uma política de quantidade e que evite a constituição de
excedentes. Como garantir todos estes objectivos, mantendo ou
reforçando a competitividade da agricultura e do sector
agro-alimentar é a grande questão que se deve colocar desde já.
De
facto, a proposta da Comissão preconiza uma verdadeira reforma,
senão mesmo uma revolução no panorama agrícola europeu, ao
avançar com o desligamento das ajudas das produções (ajuda ao
rendimento, único, por exploração, num só pagamento, na base de
dados históricos), plafonamento das ajudas directas (300 000
euros/exploração mais uma franquia de 5 000 euros até ao limite
de 2 UTA), modulação progressiva (redução de 3%/ano das ajudas
directas, a partir de 2004, até se atingir um máximo de 20%),
set-aside ambiental, baixa suplementar de 5% no preço de
intervenção dos cereais com eliminação das majorações mensais
e o reforço das ajudas para o desenvolvimento rural (segundo pilar
da PAC). As ajudas serão eco-condicionadas, ou seja, ligadas ao
cumprimento de regras ambientais, de saúde, bem-estar animal e
segurança alimentar, estando previsto um sistema de auditorias
agrícolas para os produtores que recebam pagamentos directos
superiores a 5 000 euros/ano.
Conhecidas
as propostas de Bruxelas, as primeiras reacções foram desde logo
de manifesta oposição, ainda que por razões diferentes, da parte
de um conjunto de países como a França, Portugal, Espanha,
Itália, Grécia, Irlanda, Bélgica, Luxemburgo e Áustria. Pelo
contrário, o projecto foi bem acolhido pela Alemanha, Reino Unido,
Holanda, Suécia e Dinamarca e alguns deles até referiram que a
Comissão deveria ter ido um pouco mais longe...
Antecipando-se
à divulgação pública das propostas, o governo português
apresentou em Junho a sua contribuição para a revisão intercalar
da PAC, num documento intitulado “Portugal: Um Estado-membro
fortemente penalizado pelo desequilíbrio dos apoios provenientes do
FEOGA-Garantia e que necessita de produzir mais”. Neste documento,
Portugal chama a atenção para 3 aspectos fundamentais: o
desequilíbrio dos apoios (o nível de apoio proveniente do primeiro
pilar da PAC está na origem do enorme desequilíbrio das ajudas à
agricultura portuguesa), os factores que geram os desequilíbrios
(para Portugal, não estão em causa os diferentes tipos de quotas e
apoios existentes na PAC mas o seu nível) e as posições
portuguesas (contra a renacionalização da PAC e/ou a supressão do
seu carácter protector; a favor do reforço do primeiro pilar
relativo a Portugal, de quotas e ajudas unitárias revistas e de uma
modulação moderada, obrigatória e uniforme em toda a União). De
facto, Portugal recebe 1.4% do total de ajudas do FEOGA, inferior à
sua participação no produto agrícola da União Europeia (2.3%).
Por outro lado, o nível total de apoio da PAC ao nosso país por
UTA (Unidade de Trabalho Agrícola) é o mais baixo de toda a União
e, no caso das ajudas directas, o nível de apoio é 5 vezes
inferior à média dos Quinze e 11 vezes inferior à dos países que
mais recebem por unidade de trabalho. Nesta perspectiva, aceitar as
propostas de separação das ajudas das produções (découplage),
num país maioritariamente de pequenas explorações em que a
produção não é orientada essencialmente para o mercado, em que
as ajudas serão consideradas numa base histórica e tendencialmente
mais reduzidas, significa cristalizar o nosso atraso estrutural e o
nosso nível de subdesenvolvimento. Neste ponto parece que todos
estamos de acordo, Ministério e organizações agrícolas e
agro-alimentares: Portugal não pode viver sem a PAC mas
necessitamos de uma PAC que não desmantele a nossa estrutura
produtiva, que tenha possibilidades de aumentar a nossa capacidade
produtiva e que, num quadro de uma política não só agrícola mas
cada vez mais alimentar, se oriente para a contratualização das
produções, integrando toda a Fileira
agro-alimentar.
Para
a FEFAC (Federação Europeia dos Fabricantes de Alimentos Compostos
para Animais), num documento discutido e subscrito pela IACA, a
qualidade deve ser considerada como o terceiro pilar da PAC,
defendendo-se ainda uma maior fluidez no mercado dos cereais, a
promoção das oleoproteaginosas com a denúnicia do acordo de Blair
House, invertendo o elevado déficit europeu de proteínas (da ordem
dos 75%) e a consolidação das reformas precedentes. O problema das
importações de países terceiros é outra prioridade,
considerando-se que as importações deverão ter as mesmas regras
impostas aos produtos comunitários, de forma a evitar-se
distorções de concorrência. A FEFAC considera ainda que as
propostas da Comissão são insuficientes para relançar a
competitividade da Fileira Pecuária nos mercados europeu e mundial
e chama a atenção para o facto da separação das ajudas provocar
enormes desequilibrios no mercado e injustiças entre agricultores,
pela introdução da separação das ajudas das produções.
Para
a FIPA (Federação das Indústrias Portuguesas
Agro-Alimentares), a
reforma intercalar da PAC, deverá centrar-se em 5 grandes linhas: a
política agrícola deve ser igualmente alimentar, sem desmantelar a
nossa estrutura produtiva, deve ser coerente com as outras
políticas, a agricultura durável não deve pôr em causa a
competitividade da indústria, a segurança alimentar não deve ser
negociável, tem de ser garantida a necessidade de aprovisionamento
à indústria e deve ter-se em linha de conta o princípio da
solidariedade financeira, evitando-se a renacionalização da PAC.
Deve ainda separar-se a noção da qualidade, enquanto preferência
dos consumidores, da qualidade ligada ao processo de fabrico e à
segurança alimentar (inocuidade) dos alimentos, pelo que a
qualidade deve assumir-se como o terceiro pilar da PAC.
No
que respeita às principais organizações agrícolas nacionais,
pelos argumentos já referidos e na linha do documento apresentado
pelo Governo português, esta revisão da PAC é inaceitável,
injusta e perversa, geradora de distorções de concorrência entre
agricultores, sobretudo no que respeita à separação das ajudas da
produção e à modulação, transformando os produtores em
pensionistas da Comissão Europeia.
Entretanto,
a IACA, já em Abril deste ano, num memorandum enviado ao Ministro
da Agricultura, defendeu que a reforma intercalar da PAC deve
consolidar as reformas precedentes - invertendo a actual situação
em que Portugal tem sido claramente prejudicado na distribuição
das ajudas - deve ainda assegurar o rendimento dos agricultores
portugueses com uma reordenação das ajudas para o desenvolvimento
rural. Portugal deve apostar na separação de uma agricultura
competitiva e empresarial do modelo de uma agricultura
multifuncional, no respeito pelo ambiente e bem estar animal. A
qualidade deve constituir o terceiro pilar da PAC, defendendo-se uma
maior fluidez dos mercados como o dos cereais (diminuição dos
preços de intervenção, supressão das majorações mensais,
restrições na intervenção) e a criação de condições que
permitam uma inversão do elevado déficit europeu das
oleo-proteaginosas. O problema das importações de países
terceiros deve constituir outra grande prioridade, pelo que os
produtos animais provenientes desses países deverão ter as mesmas
regras - de produção, bem-estar e segurança - que as que são
impostas aos produtos comunitários. Para um país como o nosso, com
fracos recursos e dadas as dificuldades no cumprimento dos
critérios de convergência, devemos evitar quaisquer tentativas de
renacionalização da PAC. Esta tem sido a posição que temos
assumido, quer em Portugal, quer em Bruxelas, no âmbito da FEFAC.
Entretanto,
na Cimeira de Bruxelas, realizada em 25 de Outubro, confirmou-se que
se existe uma política que consegue cristalizar os grandes desafios
que se colocam ao funcionamento futuro da construção europeia, é
claramente a Política Agrícola Comum. Desta vez, o grande desafio
é o alargamento da União Europeia a 10 novos Estados-membros,
previsto para 2004 e, como habitualmente, as divergências
concentram-se sobre as questões financeiras. As despesas agrícolas
absorvem cerca de 45% do orçamento europeu, existindo um só país,
a França, que beneficia de 22% da PAC (9.2 mil milhões de euros de
um total de 41.5 mil milhões). Segue-se a Espanha, com 15%, a
Alemanha (14%), a Itália (13%), o Reino Unido (10%) e a Grécia
(6%). Em termos absolutos, a Alemanha assume-se como o principal
contribuinte líquido do orçamento comunitário (20 mil milhões de
euros num total de 80.7 mil milhões), representando 24.5%, seguida
da França (18%) e da Itália (14.5%). Os Quinze estão determinados
a prevenir os riscos de explosão dos encargos financeiros, pelo que
a reforma urgente da PAC seria o mais aconselhável para aqueles que
menos dela beneficiam proporcionalmente, como a Alemanha e o Reino
Unido. De resto, segundo os serviços da Comissão, com as propostas
de revisão da PAC, sobretudo o desligamento das ajudas da
produção e a modulação obrigatória, a União Europeia
economizaria cerca de 200 milhões de euros/ano. No entanto, a
França, acompanhada por um conjunto de países como Portugal,
sempre afirmou que não estaria disposta a alterar as “regras do
jogo” antes de 2006.
Tal como noutros dossiers de importância
capital para o futuro da União, o eixo Paris-Berlim parece ter
funcionado e a França e a Alemanha conseguiram um acordo que impõe
uma redução das despesas agrícolas da União Europeia. A Alemanha
conseguiu a sua pretensão de congelar, a partir de 2007, as
despesas da PAC e o congelamento deverá ser definido com base nas
despesas previstas em 2006 - cerca de 45 mil milhões de euros -
actualizado em função da inflação. A França, defensor
intransigente da PAC actual, aceitou manter os seus mecanismos até
2006, sendo certo que os agricultores receberão menos dinheiro a
partir de 2007. A França pretende ainda discutir a retribuição
orçamental do Reino Unido que lhe permite recuperar 2/3 da
diferença entre o que recebe e o que paga para Bruxelas. Em termos
concretos, o grande debate sobre a partilha dos custos do
alargamento será adiado para o final do ano e, no que respeita à
revisão intercalar da PAC, tudo deverá ficar igualmente “congelado”.
Reagindo
ao acordo franco-alemão, o Comissário Fischler já admitiu que
poderá reformular a sua proposta para de modulação obrigatória
dos pagamentos directos. Quanto à découplage, justifica a sua
implementação pela negociações da OMC, pretendendo manter as
propostas para o sector do leite e dos cereais, na linha do que foi
decidido em Março de 1999, na Cimeira de Berlim. O Comissário
afirma ainda que o congelamento das despesas de mercado, para o
período 2007 a 2013, ao nível do plafond fixado pela União
Europeia a 25 em 2006 (mais uma indexação de 1% ao ano), como
ficou acordado na Cimeira de Bruxelas, não permitirá cobrir os
custos de todas as medidas previstas.
Apesar
de todas as actuais definições, pensamos que as grandes linhas de
orientação das propostas da Comissão, serão recuperadas, em
parte ou na sua totalidade, ainda que com alguns ajustamentos, para
o período pós-2006. Sobretudo as grandes questões, ligadas à
separação das ajudas (découplage), a modulação (redução das
ajudas directas e canalização para o desenvolvimento rural) ou a
eco-condicionalidade (ajudas condicionadas ao ambiente, bem-estar
animal e regras de segurança alimentar), tanto mais que as ajudas
aos novos Estados-membros são desligadas das produções (embora
atríbuidas por superfície agrícola útil), a partir de 2004 (25%
das ajudas pagas nos Quinze), valor que aumentará progressivamente
até se atingir os 100% em 2013.
É
verdade que o sector agrícola necessita de um quadro de
estabilidade a médio e longo prazo para delinearmos investimentos e
perspectivas de desenvolvimento, o que não tem acontecido nos
últimos anos mas seria bom que não perdêssemos de vista que o
acordo franco-alemão mais não fez que adiar as soluções e que
Portugal se deve preparar, desde já, para essas inevitáveis
transformações, invertendo a tendência para continuar a ser o
país mais penalizado com os actuais mecanismos da PAC e que
necessita de continuar a produzir para manter a agricultura e o
tecido agro-alimentar minimamente competitivos.
Por
outro lado, atentos a esta realidade, não podemos continuar a
ignorar que, muitas vezes, quando falamos em “especificidades da
nossa agricultura ou da nossa agro-indústria”, mais não estamos
a fazer do que manter estruturas e/ou orientações produtivas que
não terão qualquer sentido a partir de 2007. É sabido que a nossa
margem de manobra é estreita mas certamente que teremos de alterar
mentalidades, culturas empresariais e, seguramente, um novo modelo
de cooperação inter-associativa e de ligação com a
Administração Pública. Porque a capacidade de organização de um
país é essencial para a sua competitividade e afirmação na cena
internacional.
Jaime
Piçarra
Engenheiro
Agrónomo
Assessor da IACA - Associação
Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais
Publicado
em 25-11-2002
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